Assine

Veterinária e estudante desmistificam: castração não é mutilação

Elas também comentam marcação feita em animais de rua que são castrados

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Já não seria novidade afirmar que os animais de companhia estão ganhando cada vez mais espaço dentro das residências. Conforme mostra os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui mais de 140 milhões de pets, sendo o a terceira maior população do mundo, ficando atrás apenas da China e dos Estados Unidos. No entanto, esse grande número acaba trazendo outro: o de animais abandonados. Por aqui, já são 4 milhões de pets que vivem em abrigos, sob tutela de famílias carentes ou em situação de rua, segundo o Instituto Pet Brasil.

A principal medida para evitar a população vulnerável de pets e, também, para evitar que estes sejam acometidos por determinadas doenças é a castração. No entanto, há bastante debate sobre a esterilização entre tutores e, até, entre médicos-veterinários: a castração é uma forma de mutilação? Na opinião da discente do primeiro semestre de Medicina Veterinária, do Centro Universitário FAM (campus Mooca), Vanessa de Almeida Souza Caracelli, castrar um animal não significa mutilação, sendo, assim, duas coisas distintas.

Como apontado por Vanessa, na castração, são removidos, cirurgicamente, os ovários, útero e os testículos dos animais. “Acredito que algumas pessoas consideram esse procedimento cirúrgico como mutilação por pura ignorância (falta de conhecimento) sobre o assunto (prós e contras das castrações). Além disso, muitas pessoas acreditam que todos os animais são como os seres humanos, que há necessidade de prazer sexual (obviamente, há exceções), mas, especificamente, caninos e felinos não possuem tais necessidades”, comenta.

Doenças como orquites, prostatites, piometras,
endometria, mastites, entre outras, são evitadas
com a castração (Foto: reprodução)

Mais um sim para a castração. A médica-veterinária que atua em clínica de pequenos animais, Talita Morello, também não considera a esterilização como um ato de mutilação: “Pois a castração evita doenças venéreas, doenças dos órgãos reprodutivos e gestações indesejáveis. Consequentemente, atua como controle populacional”, reforça e indica que alguns veterinários consideram o meio em que esses animais são submetidos à cirurgia uma forma de mutilação. “Por exemplo, campanha de castração, castração a preço popular e métodos anestésicos ultrapassados”, adiciona.

Para a estudante Vanessa, mutilação são os procedimentos já devidamente proibidos aqui no Brasil e em outros países no mundo. “Aquelas de cunho estético, como a Conchectomia (corte das orelhas), Cordectomia (retirada das cordas vocais), Caudectomia (corte das caudas) e Onicectomia (retirada completa das garras dos felinos)”, opina. A veterinária Talita também concorda: “Considero mutilação as práticas estéticas cirúrgicas que não trazem nenhum benefício para o paciente, a não ser a beleza a ser ‘desfrutada’ pelo proprietário”, lamenta.

Vanessa acredita que a importância da castração dos animais é, justamente, por conta do aumento da população animal. “Há superlotação de animais nas cidades. Muitos animais vivem em péssimas condições, padecem de maus-tratos, ficam doentes, são abandonados. Os poucos que são resgatados, vivem anos em abrigos e ONGs, à espera de um tutor. É imprescindível que haja a adequada conscientização da população sobre a necessidade do correto controle de natalidade em animais domésticos”, pondera.

Talita frisa que a castração é um procedimento cirúrgico recomendado pela literatura para a prevenção e tratamento de doenças. “A cirurgia é recomendada, também, para controle populacional: se os animais não forem castrados, poderá se transformar em um problema sério de Saúde Pública”, corrobora.

Quando são feitas marcações (cortes) na orelha dos
animais é para identificar visualmente os que já
são esterilizados (Foto: reprodução)

Marcação nos castrados. Saindo um pouco sobre a castração em si ser ou não considerada mutilação, há outra situação envolvendo os castrados. Algumas clínicas e prefeituras, quando castram animais de rua, que serão devolvidos ao local de onde foram capturados para a esterilização, realizam um corte na orelha a fim de “marcar” os já esterilizados. A medida visa acabar com as chances de capturar um animal que já passou pelo procedimento, evitando, assim, o estresse desnecessário.

A veterinária Talita desconhece a prática. Ela afirma que nunca presenciou ou soube que isso era praticado. “Mas, se ocorre, considero uma mutilação”, avalia. Vanessa, por sua vez, diz que, se formos analisar friamente, no real significado da palavra mutilação, o corte é, sim, considerado como tal. “Porém, é uma marcação ‘necessária, para que possamos identificar visualmente os animais já esterilizados, evitando o retrabalho, principalmente, nos casos de CED (captura, esterilização e devolução) nas grandes metrópoles”, avalia.

Como explicado por Vanessa, trata-se de uma marcação amplamente utilizada, inclusive mundialmente. “É feita de maneira minimalista e sob o animal devidamente sedado, logo após o procedimento cirúrgico de sua castração”, narra. Segundo ela, a recuperação é rápida e muitos veterinários informam que é "indolor", por se tratar de um local de cartilagens. “Porém, cuidados devem ser observados, pois trata-se de um local altamente vascularizado”, sinaliza.

Ela lembra que, antigamente, o Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo (CCZ-SP) realizava o procedimento de tatuagens nas orelhas dos animais, com o seu número de registro junto ao órgão. “Porém, os tutores legais destes animais alegavam que a tal ‘tattoo’ era, esteticamente, feia e que maltratava os pets. Atualmente, utilizam o ‘picote’ na orelha do animal, além da inserção de um microchip, de forma subcutânea, onde realiza-se a leitura de um código com o auxílio de um equipamento portátil, do tamanho de uma calculadora”, descreve.

Porém, muitas clínicas veterinárias não possuem tal equipamento, o que dificulta a identificação dos animais e, consequentemente, impossibilita a obtenção de informações, como se o animal já está ou não devidamente esterilizado. “Minha opinião é que deve ser divulgado o procedimento da utilização do microchip e que todas as clínicas, pet shops, hospitais, ONGs e protetores independentes tenham esse equipamento para auxiliar, ainda mais, o trabalho de todos. Dessa forma, haverá progressos na assertividade nas campanhas de castrações, minimizando os maus-tratos e número de animais abandonados, já que os dados dos tutores legais ficam registrados nos microchips e nos sistemas dos órgãos competentes”, conclui.

Seja o primeiro a comentar
Seu comentário foi enviado. Aguarde aprovação.
Erro ao enviar o comentário. Por favor, preencha o captcha e tente novamente.