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Mudanças na dinâmica dos gatos podem causar dermatite psicogênica

Membros da Liga de Felinos da UFRRJ apontam sintomas e tratamentos para a doença

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Você sabia que existe uma doença que une o sistema tegumentar ao sistema nervoso (dermatologia + psicologia) dos animais? Pois bem, existe e chama-se dermatite psicogênica, um transtorno efêmero mental que acomete cães e gatos. O assunto, entre tantos outros, é estudado por membros da Liga de Felinos (Lifel), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e quem entrou em contato com nossa equipe para explicar o problema foram as estudantes Giovanna Neves Silva, Lesleyane Damaris Teixeira Santos, Porneta Sungo Dandara da Cunha Kisa Sunda, Isabella Jenifer Viana Soares e Grazielle Morais de Rezende. Todas participantes do grupo.

Segundo as meninas, a doença é considerada uma dermatopatia comportamental. “Causada pelo estresse, principalmente por animais mais apegados aos tutores, caracteriza-se por lesões na pele, devido às lambeduras repetitivas ou, até mesmo, mordidas frequentes em um mesmo local. A recorrência das lambeduras e mordidas está associada à liberação de opioides endógenos, que geram sensação de prazer e eliminam o fator perturbador que está causando o estresse. Por ser psicológica, a doença não é contagiosa”, informa Giovanna da Silva.

Apesar de não passar de um gato para outro, Lesleyane Santos explica que a dermatite psicogênica é de ocorrência comum entre felinos com quadro de estresse e pode ocorrer como resultado de uma ansiedade nervosa. “Essa ansiedade pode ser causada por fatores psicológicos, como por exemplo, uma mudança para uma casa nova ou alguma modificação na casa atual, falta de enriquecimento ambiental no local onde o felino reside, alta densidade populacional, uma modificação na ordem de dominância no território, sons emitidos por cães ou outras espécies de animais, chegada de uma nova criança, entre outros”, elenca.

Uma mudança para uma casa nova ou alguma modificação
na residência atual já pode desencadear o problema
(Foto: reprodução)

Sinal de que algo não vai bem. A estudante Porneta Sunda aponta que a lambedura excessiva de pelos é o principal marcador, já que nem sempre a dermatite estará presente. “Alguns gatos lambem com muita frequência uma mesma área em particular, até que as cerdas presentes na língua provoquem alopecia, abrasão, ulceração e infecção secundária”, menciona. Segundo ela, outros gatos, por sua vez, podem lamber e morder delicadamente em área dispersa. “Nesses casos, a alopecia será a lesão principal. O felino ainda pode mastigar seu pelo ou pele ou arrancar o próprio pelo”, adiciona.

Isabella Soares lembra que qualquer mudança ambiental e experiência desagradável pode ocasionar o problema. “Outros fatores que desencadeiam o quadro são: comportamento autodirecionado (problemas psicológicos, sensoriais, cutâneos, comportamentais secundários e primários), manejo inadequado, isolamento, hospitalização, falta de estímulos sociais ou ambientais, disputa territorial pela chegada de outro gato, etc. São fatores que causam excesso de nervosismo, ansiedade, frustação ou excitação, diminuindo o nível de bem-estar e podendo desencadear a dermatite psicogênita nos felinos”, enumera.

A estudante ainda complementa que as lesões se caracterizam por perda de pelo nas partes afetadas (alopecia), presença de granuloma, vermelhidão (eritema) e possuem formato oval. “As áreas mais afetadas são as mais fáceis de serem lambidas, tais como virilha, abdômen, laterais do abdômen, interior das coxas e costas”, aponta.

Como detectar? Trata-se de um diagnóstico complexo, conforme elucida Grazielle Rezende: “É preciso observar o comportamento do animal na consulta e, se possível, que ela seja domiciliada, para que possa ser feita a investigação do ambiente e do comportamento do tutor referente à interação com outros animais da residência, se houver, e o manejo com o felino em questão”, orienta.

Com isso, segundo a membro da Lifel, é possível observar se o gato apresenta comportamento repetitivo, podendo identificar a manifestação comportamental como causadora da alteração cutânea. “É imprescindível salientar que existem raças mais predispostas, como Siameses e Abissínios. Logo, fazendo uma anamnese apurada e exames complementares de raspado de pele, uso de técnica de epilação e biópsia, é possível concluir o diagnóstico por exclusão de outras dermopatias”, revela.

O tratamento será diferente para cada caso e depende
do fator que desencadeou o problema no animal
(Foto: reprodução)

Tratar para melhorar. A estudante Giovanna Siva menciona que a terapia envolve alterações ambientais, comportamentais e tratamento das lesões. De acordo com ela, o tratamento tem como principal objetivo identificar e remover a manifestação comportamental causadora da alteração cutânea, após descartar possíveis doenças físicas. “O ambiente é modificado conforme a necessidade do gato, visando o enriquecimento ambiental e diminuição do estresse”, destaca.

O uso de agentes psicoativos também tem se mostrado eficaz, conforme comentado pela graduanda, visto que geram conforto para o paciente. “Incluem-se nessa categoria as classes de antidepressivos tricíclicos e inibidores da recaptação de serotonina, tem-se como exemplos amitriptilina e fluoxetina, respectivamente. Outras opções viáveis são a utilização de feromônios sintéticos e aromaterapia, como por exemplo, óleos essenciais. As lesões contaminadas devem receber tratamento direcionado a por via oral e a terapia tópica não é indicada devido ao risco de autolambedura”, salienta.

Ajuda do tutor. O veterinário, como orienta Lesleyane Santos, deve explicar ao tutor a importância dos pilares essenciais da rotina do gato, que são: Proporcionar um lugar seguro, múltiplas fontes de recursos, oportunidades do felino brincar e manifestar seu comportamento predatório, interações sociais humano-gato de forma positiva, consciente e previsível e promover um ambiente que respeite a importância do sentido do olfato do gato.

Satisfeitos esses pilares, o tipo de manejo será diferente para cada caso e depende, estritamente, do fator que desencadeou o problema, podendo ser realizado, por exemplo, por meio do enriquecimento ambiental, com fármacos ansiolíticos, homeopáticos ou até maior atenção por parte do tutor. “É dever do médico-veterinário analisar cada caso e orientar o manejo mais adequado a ser empregado pelo tutor, respeitando a singularidade de cada felino. Além disso, o profissional deve acompanhar o processo, para possíveis adequações, quando necessário”, recomenda.

No caso da dermatite psicogênica felina (neurodermatite), é comum que os tutores considerem a lambedura um hábito normal, não correlacionando o ato com o felino estar se coçando. Segundo Porneta Sunda, gatos adultos gastam de 30 a 50% de seu tempo acordados, realizando sua autolimpeza, ou seja, a cada uma hora do felino acordado, espera-se que esse passe de 18 a 30 minutos realizando sua higiene. “Então, é interessante explicar ao tutor esse parâmetro, para que seja possível identificar se essa prática ocorre de forma excessiva”, indica.

Nos casos em que o tutor não percebe a mudança comportamental no felino, como a lambedura constante de determinada região do corpo, Porneta atesta que essa lambedura pode evoluir, formando abrasões, úlceras e favorecendo infecções secundárias, aumentando o estresse do felino e dificultando o tratamento. “Além disso, para o diagnóstico de neurodermatite, é necessário o histórico detalhado e descarte de outras doenças que possam se correlacionar com a clínica do paciente. Somente após excluídas outras causas possíveis é viável diagnosticar a dermatite psicogênica e iniciar o tratamento”, explana.

Portanto, conhecer bem o gato, seus hábitos e costumes é fundamental para o tutor perceber doenças o mais precocemente possível. Dessa forma, segundo as meninas da Liga de Felinos, a identificação do problema, diagnóstico e início do tratamento ocorrem de forma mais ágil, o que previne complicações futuras.

Além de Dermatite Psicogênica, pode ser chamada de Granuloma de Lambedura ou Lick Granuloma, Neurodermatite, Alopecia Psicogênica, Dermatite por Lambedura e Dermatite Pantomímica ou Factícia. As participantes da Lifel salientam que é de extrema importância, diante de todas as explicações da doença, proporcionar ao felino uma rotina previsível e regular que tenha à disposição comidas e brincadeiras no decorrer do dia a dia.

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