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Médico-veterinário brasileiro cria app que detecta dor em gatos

Stelio Luna informa que, em breve, haverá aplicativo para outras espécies

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

A frase “isso é muito Black Mirror (série de televisão que relata o que há por trás das telas e uma tecnologia futurística)” pode ser, facilmente, empregada para essa novidade: um aplicativo que detecta dor em gatos. A boa nova fica ainda melhor quando se sabe quem elaborou o app: brasileiros.

A aplicação móvel gratuita, que detecta a dor do animal em tempo real, foi criada pelo professor titular, do Departamento de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade Estadual Paulista (FMVZ-Unesp, Campus Botucatu), Stelio Pacca Loureiro Luna. Com o auxílio da escola de inovação, Cesar School, também situada em solos brasileiros, Luna conta que a intenção foi popularizar a avaliação da dor em gatos e, para tal, oferecer uma ferramenta que pudesse ser utilizada não só por médicos-veterinários, mas, também, por tratadores e público em geral.

O professor explica a funcionalidade do app: “É como se fosse um teste de múltipla escolha, em que, frente aos comportamentos que o gato apresenta, o usuário clica nas que ele considera mais parecidas. O aplicativo faz a pontuação automaticamente e, no final, sugere ou não que se faça tratamento analgésico de acordo com a intensidade da dor”, expõe.

O diagnóstico da dor é fundamental para aliviá-la e
garantir o bem-estar animal (Foto: reprodução)

Ele conta que há duas versões para essa pontuação: uma escala curta, cuja pontuação máxima é de 12 pontos e que contém quatro avaliações com pontuação máxima de 3 cada um. “São elas: a postura, conforto, reação ao toque da área afetada e alguns comportamentos específicos de dor. Essa é mais fácil de ser utilizada pelo tutor. A versão convencional é mais longa e possui um detalhamento maior dos comportamentos. Também inclui avaliação de apetite e pressão arterial, entretanto, pode ser utilizada sem essas duas últimas avaliações”, compartilha.

Ajuda ao tutor e ao veterinário. Por ser uma ferramenta simples, Luna garante que até uma criança pode fazer a avaliação, desde que tenha atenção aos comportamentos que o animal apresenta. “Cabe lembrar que o aplicativo diagnostica a dor aguda e não as doenças, entretanto, como a dor é consequência de muitas enfermidades, o uso do aplicativo pode alertar o tutor para levar o gato a um veterinário, bem como o cuidador pode acompanhar o resultado do tratamento que o animal recebe para aliviar a dor e avisar o clínico, caso o animal apresente uma piora da dor, por exemplo”, menciona.

Para avaliar os resultados, o tutor só precisa informar a raça e idade do animal, bem como inserir, de acordo com as opções do aplicativo, quais comportamentos mais se assemelham ao que o gato apresenta. Luna assegura que, por meio de alguns sinais demonstrados pelo pet, como a postura, nível de atividade, apetite e pressão arterial, é possível determinar se ele está sentindo dor e em qual escala.

No que diz respeito aos veterinários, o diagnóstico da dor é fundamental para aliviá-la e garantir o bem-estar animal, na visão de Luna. “De acordo com a intensidade da dor, o profissional pode escolher qual analgésico e dose utilizará, levando em conta os seus efeitos e potência. Adicionalmente, ele pode acompanhar a evolução do tratamento e, se for o caso, tratar a dor novamente quando necessário”, declara.

Por ser uma ferramenta simples, qualquer pessoa que
tenha atenção aos comportamentos que o animal apresenta
consegue fazer a avaliação (Foto: reprodução)

Luna também aponta que também é possível avaliar diferentes protocolos analgésicos para saber quais são os melhores frente a cada situação específica. “Assim, é um ótimo instrumento para ser utilizado em situações de pesquisa científica, quando se quer testar a eficácia dos analgésicos”, garante.

Por que gatos? Para Luna, os gatos sempre foram mais esquecidos quando comparados aos cães, tanto na avaliação, como no tratamento da dor. “Os felinos, até recentemente, recebiam menos analgésicos para tratar a dor do que os cães nas mesmas condições. Também é mais difícil reconhecer a dor em gatos do que em cães, pois o comportamento deles é mais discreto”, observa. Daí a ideia e a colaboração aos especialistas em felinos em criar esse app voltado à espécie.

A avaliação da dor em diversas espécies animais existe desde 2013, de acordo com o professor. “A versão convencional já foi lançada em português, inglês, francês espanhol e italiano. A versão curta, além das línguas anteriores, também será lançada em alemão, japonês e chinês”, informa.

O site Animal Pain, mencionado por Luna, contém a escala e todo o detalhamento de avaliação da dor, bem como os vídeos demonstrativos de cada comportamento que os animais apresentam, o que facilita muito o aprendizado. “Para o aplicativo, temos a mesma proposta, ou seja, antes de a pessoa selecionar o comportamento correspondente ao que o gato apresenta, ela pode confirmar ou não, pelo vídeo demonstrativo referente ao comportamento, se a escolha está adequada”, reforça.

Apesar de este primeiro app ser direcionado aos felinos, Luna esclarece: “Também trabalhamos com as outras espécies domésticas. Já publicamos as escalas para avaliar a dor em equinos, bovinos, suínos e ovinos e, em breve, lançaremos a de coelhos e caprinos. Também temos trabalhado com o reconhecimento da dor por meio da face do animal e a ideia é lançar aplicativos para as outras espécies também”.

O nome do aplicativo é Animal Pain (dor em animais). Ele será compatível, gratuitamente, com Android e iOS. A previsão é que tutores e veterinários tenham acesso a ele em sua loja virtual de aplicativos daqui a alguns meses.

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