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Humanização dos animais resulta em dietas desequilibradas

No Dia no Nutricionista, zootecnista aponta os principais erros cometidos pelos tutores

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Tratar um animal como um membro da família já não é mais exceção de algumas casas. Aliás, algumas pessoas adiaram os planos de ter um filho para adotar um cão ou gato, que, só quem tem sabe como pode ser, igualmente, uma companhia gostosa e um ato de extrema responsabilidade. No entanto, as regalias oferecidas aos pets devem ter limites, já que a humanização pode atrapalhar o desenvolvimento e a saúde dos animais.

Conforme explica a zootecnista e nutricionista pet, Sicília Avelar Gonçalves, humanizar é atribuir características humanas a algo e agir como se estivesse lidando com um humano. “No caso dos cães, isso vem acontecendo com uma frequência cada vez maior. Os animais de companhia deixaram de ser só animais de quintais e de guarda. Agora, eles estão dentro de casa, dormindo na cama do tutor, tomando banho toda semana, recebendo alimentos de melhor qualidade, ganhando mais petiscos, etc. São muitos os lados positivos desta humanização tanto para os pets quanto para dos proprietários, mas também trazem prejuízos”, alerta.

Como lembrado pela profissional, animais são seres sencientes, que sentem e percebem sentimentos dos humanos e isso pode os afetar de forma fisiológica. “Começam a adquirir manias, hábitos nunca manifestados, apetite caprichoso, problemas de pele devido a banhos excessivos, hipersensibilidade alimentar, aumento de peso devido ao excesso de alimentação, entre outros problemas. Os tutores devem ficar atentos a mudanças de comportamento e ao excesso de cuidados”, recomenda.

Alguns tutores repassam suas dietas vegetarianas e
veganas aos animais de companhia sem uma orientação
de um especialista (Foto: reprodução)

Preocupação dos nutricionistas. Com a humanização, alguns tutores estendem seu estilo de alimentação ao seu animal de companhia e, por isso, os profissionais que cuidam da nutrição de cães e gatos devem estar atentos e cheios de argumentos para explicar os malefícios que essa atitude pode trazer ao pet.

Entre os modelos de alimentação passados aos animais, Sicília aponta a dieta crua: “Os tutores devem ficar atentos à contaminação microbiana e de parasitas. Devem fazer o congelamento profilático indicado para cada espécie e seguir as orientações do profissional que formulou a dieta”, orienta. Ela também menciona a dieta vegetariana, afirmando que somente em casos muitos específicos ela é utilizada como dieta coadjuvante. “Se for bem formulada por um profissional, ela atende todas as exigências do animal, mas se torna uma dieta muito mais cara pelo fato de ter que repor alguns aminoácidos que são oriundos da proteína animal. O ovo é aceito nesta modalidade de dieta, então a proteína animal não é totalmente excluída. Em se tratando de ração vegetariana, ela atende todas as exigências nutricionais do animal, mas não vejo motivo para utilizá-la, a não ser em casos extremos”, opina.

A dieta vegana, que também tem sido uma realidade aos animais cujos tutores não consomem proteína animal, se enquadra no mesmo caso da vegetariana, como aponta Sicília, porém nem o ovo pode ser utilizado. “Em caso de dieta caseira, a dieta vegana deve ser formulada por um profissional para suprir todas as exigências nutricionais do animal”, reforça. Aliás, a alimentação natural também ocorre nos lares com pets. Para Sicília, embora hoje em dia a internet ajuda na busca por inúmeras receitas de dietas prontas, este não é o melhor caminho. “A dieta caseira balanceada é uma dieta formulada de forma individual, ou seja, uma mesma dieta não serve para vários cães. Tutores que fornecem aos seus animais receitas prontas da internet estão colocando os mesmos em risco, pois não foi formulada por um profissional, não é conhecida a proporção de nutrientes e nem se a dieta atende as exigências nutricionais para aquele animal”, revela. A zootecnista ainda salienta que alimentação caseira balanceada não é uma receita de bolo: demanda tempo de estudo, muito conhecimento e um tempo para alcançar uma fórmula ideal para aquele animal.

Além dos riscos dessas dietas voltadas aos pets, há outro, ainda mais comum: a oferta de comida e petiscos humanos. “Restos de comida humana jamais devem ser considerados como alimentação natural. Não tem o balanceamento correto para o cão ou gato e ainda tem grande possibilidade de conter ingredientes tóxicos para os pets, como a cebola, por exemplo. Petiscos humanos como biscoitos também não são indicados, pois colaboram com o excesso de calorias diárias que o animal ingere, aumentando riscos de obesidade”, cita.

Problemas como obesidade, diabetes e até complicações
cardiovasculares podem surgir no pet que consome
alimentos humanos (Foto: reprodução)

Pet obeso não é saudável! Com o aumento do convívio dos animais com o tutor, Sicília afirma que eles aprendem a pedir comida, ficam perto da mesa na hora do almoço, jantar e no café da manhã: “O tutor fica com ‘dó’ e acaba cedendo aos pedidos do animal.  Um pedacinho de carne aqui, um biscoitinho ou pedacinho de pão ali, uma fruta acolá faz com que o pet entenda que há alimento disponível à vontade quando ele ‘pedir’. Tudo isso somado a vários dias ultrapassa, em muito, a quantidade diária de ingestão de calorias do animal. Juntamente ao sedentarismo, acaba ocasionando sobrepeso e até obesidade”, explica.

Ainda de acordo com ela, pessoas obesas, além de possuírem distúrbios alimentares, possuem inúmeros distúrbios psicológicos e transmitem isso para seus pets. Por isso não é incomum que o animal de estimação de um obeso também sofra por obesidade. “Os obesos possuem os facilitadores que, normalmente, são alguém da família. Já o facilitador do pet é seu tutor obeso, ou seja, tudo que a pessoa tem disponível para comer vai dividir com o animal, seu grande companheiro na maioria dos casos. Então, além de ter ração à vontade, ele recebe pedaços de pizza, biscoitos, pães, bolos, carnes, o que acaba o tornando obeso também”, explana.

Sicília compartilha que a forma utilizada para conscientização dos tutores em relação à oferta de alimentos não indicados aos pets é explicando quais riscos eles sofrem por ingerirem mais calorias do que o necessário por um longo período. “Problemas como obesidade, diabetes e até complicações cardiovasculares. Mostramos, também, que a ração e a alimentação caseira (formulada por um profissional) são balanceadas e fornecem todos os nutrientes necessários para o animal e, por isso, não há necessidade de fornecer outros alimentos. Os petiscos são permitidos até 10% da quantidade diária de alimento do pet. Mais que isso está desbalanceando a dieta”, diz.

A nutricionista pet também chama atenção para um dos principais assuntos relacionados à obesidade: o animal castrado passa a ingerir mais alimento? Segundo ela, a questão não é que ele come mais, mas, sim, que gasta menos energia. “O requerimento energético diminui após a castração, mas isso não é avisado quando vão castrar os animais, então, os tutores continuam oferecendo a mesma quantidade de alimento de antes da castração. Assim, a obesidade em animais castrados acaba sendo o resultado da somatória da dieta que não foi modificada e o animal mais sedentário”, desmistifica.

Cada espécie possui um requerimento nutricional que
deve ser atendido pelo tutor (Foto: reprodução)

Alimentação individualizada. Sicília indica que uma dieta errada para cada espécie pode trazer problemas bastante sérios, sendo os principais por deficiências nutricionais. “Cada espécie tem um requerimento nutricional que deve ser atendido, porém, quando não é atendido, distúrbios aparecem”, frisa.

Um exemplo citado pela profissional é de gatos que, porventura, passam a comer ração de cães: “Felinos possuem uma exigência especial para o aminoácido taurina, o que não acontece nos cães, então, um gato que passa a se alimentar somente de ração de cachorros vai desenvolver uma grande deficiência neste aminoácido e isso reflete, significativamente, no coração e na visão”, demonstra. Outro exemplo, também com felinos, é a exigência de proteína bruta: “A exigência de proteína para gatos é bem maior que para cães, portanto, um gato que só se alimenta de alimento específico para cães vai apresentar, no mínimo, deficiência de taurina e diminuição de formação de massa muscular”, adiciona.

Por fim, a zootecnista deixa um recado aos tutores que pegam receitas de dieta (alimentação natural) para animais da internet ou fazem por conta própria: estes têm uma parcela de culpa! “Isso porque, quando os animais ficam doentes e são levados ao veterinário, o tutor fala que estava ofertando ‘alimentação natural’ e o veterinário acaba creditando a doença à alimentação, o que não é o caso.

Em sua visão, a alimentação caseira balanceada não é somente uma “modinha”: “Ela veio para ficar e atender ao mercado mais exigente. Porém, esta modalidade de alimentação ainda tem baixa credibilidade entre a maioria dos médicos-veterinários clínicos. Os profissionais sérios, que estudaram para formular dietas, sejam eles veterinários com especialização em nutrição ou zootecnistas, acabam não tendo tanta credibilidade. Dietas de manutenção ou coadjuvantes devem sempre ser formuladas por profissionais capacitados, pois, além do peso metabólico, muitos outros parâmetros são levados em consideração no momento de formular uma dieta”, encerra.

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