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Entenda o porquê da captura, esterilização e devolução de gatos de rua

Método traz benefícios à Saúde Pública, já que controla a população e as doenças que também afetam o homem

Cláudia Guimarães, em casa

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Se você é leitor assíduo aqui de nosso portal, já se deparou com inúmeras siglas que correspondem a doenças, vírus, órgãos de classe, entre outros. Agora, mais uma vai entrar para sua lista e essa tem impacto na Saúde Pública – mais para frente, você vai entender o porquê. Trata-se da sigla CED, que significa Captura, Esterilização e Devolução.

Essa é uma poderosa ferramenta de controle ético de gatos de vida livre, utilizada por protetores de animais, ONGs e governos mundo afora. O gestor ambiental, presidente e idealizador da ONG Bicho Brother, Eduardo Pedroso, explica que, por tratar-se de um método, cada uma de suas etapas possui regras que determinam como o praticante deve agir para obter maior sucesso no controle da colônia e diminuir, ao máximo, riscos para si e para os animais. “Por exemplo, a segunda etapa de trabalho do método, a castração, obrigatoriamente deve ser feita com técnica minimamente invasiva, sendo o médico-veterinário procurado para esse momento, um profissional que domine essa técnica. A castração minimamente invasiva faz parte do protocolo de CED. Sem ela não é possível devolver o gato para a colônia no tempo correto”, afirma.

Engana-se quem pensa que essa é uma tarefa fácil. Os animais não são tão dóceis e fáceis de agradar quanto os já domesticados, que vivem dentro de casas: eles são conhecidos como ferais. Pedroso compartilha que a forma correta para capturar os indivíduos de uma colônia é utilizando armadilhas profissionais que respeitem padrões de segurança e eficiência. “Deve-se evitar as armadilhas com ganchos: são mais baratas e muito perigosas, causam acidentes terríveis, pois o gancho pode perfurar o corpo do animal”, alerta.

Gatos ferais tendem a ter medo das pessoas e
manter extrema distância (Foto: reprodução)

Mas, a partir do momento em que é possível realizar o CED, com todos os cuidados citados, a médica-veterinária Jéssica Torquato da Silva garante: “Os benefícios são inúmeros, como por exemplo, a redução de ninhadas indesejadas, brigas nos telhados em razão do cio, acidentes e traumas, dejetos em locais públicos, disseminação de doenças zoonóticas ou não, entre outros”.

E sobre quem está apto a fazer as capturas, o gestor ambiental se posiciona da seguinte maneira: “Preferencialmente, profissionais de manejo de fauna devem fazer o trabalho de campo, ir à colônia, fazer o estudo de área, empreender as capturas, transportar os animais para a clínica, ajudar no acompanhamento do rápido pós-cirúrgico e fazer a devolução e monitoramento. Biólogos, zootecnistas e gestores ambientais estão mais aptos ao trabalho, entretanto, como o método lida como uma realidade de descontrole de espécie, é claro que não temos profissionais em número suficiente para atender a demanda, ficando, muitas vezes, o protetor comum responsável por toda a mecânica do processo. O importante é que quem vá fazer o controle com método CED, profissional ou não, esteja plenamente capacitado para o trabalho”, pondera.

Para o processo de captura, Jéssica indica alguns outros cuidados: “Antes de capturar os animais, é preciso estabelecer uma rotina de alimentação e um local adequado, pois isso facilitará a captura e poderemos estimar a quantidade correta de animais daquela colônia. É interessante inserir as armadilhas abertas e travadas com alimento dentro ou próximo aos pontos de alimentação, para que eles se acostumem com a presença delas ou, até mesmo, adentram para se alimentar sem serem efetivamente capturados. Depois, é preciso estabelecer um local seguro para manter os gatos pós captura, bem como panos para cobrir as armadilhas e evitar estresse durante o manejo e transporte”, ensina.

Segundo a profissional, é imprescindível que haja uma data pré-estipulada com clínicas veterinárias para realizar a castração dos animais em um único dia. “Antes de iniciar o CED, deve-se informar a comunidade da data da captura e solicitar que ‘aprisionem’ seus gatos domésticos e que não alimentem os ferais na noite anterior a captura, pois eles adentrarão nas armadilhas apenas se estiverem com fome”, destaca.

A devolução é obrigatória? Segundo Pedroso, sim: os animais devem retornar, depois de recuperados da cirurgia, para sua área de vida. “Gatos de colônia, em sua maioria, são de temperamento forte e não se adaptam ao confinamento, não têm perfil para virar pet, não é possível domesticá-los. E, mesmo que haja pessoas que queiram ‘amansá-los’ para que sejam adotados, é um trabalho contraproducente, requer muito tempo e recursos, energia que deve ser empregada no controle, que é a finalidade do método”, argumenta.

Jéssica adiciona que os gatos com características menos ferais são passiveis de doação, sim, entretanto, é extremamente discrepante o comportamento de um gato realmente feral quando comparado a um domiciliado. “Muitas pessoas não entendem as dificuldades de adaptação, sem contar o estresse que um gato sofre quando tentam domiciliá-lo à força. Não é assim que funciona. O método preconiza a devolução desses animais dentro de 24 horas para seu local de origem”, defende.

O processo de captura deve contar com alguns
cuidados para minimizar o estresse causado no
animal (Foto: reprodução)

Mas, e se houver um gato, entre os outros da colônia, que seja menos arisco? Pedroso declara que o método prevê que gatos vulneráveis sejam retirados da colônia e sigam para abrigos seguros. “Entende-se como vulneráveis os filhotes que tenham por volta de 45 dias até dois meses de idade (antes, dependem muito da mãe e, depois de dois meses, demonstram muita resistência para domesticação) e gatos machucados e doentes. Esses últimos devem retornar para a colônia após tratamento, os filhotes devem ser disponibilizados para adoção após processo preparatório. Na hipótese de existir um gato manso na colônia e houver um bom lugar para abrigá-lo, é o que se deve fazer”, opina.

Mas vale lembrar que apenas nesses casos citados acima é recomendado o afastamento da colônia. Pedroso explica que gatos de temperamento forte, que as pessoas popularmente costumam chamar de feral e os técnicos chamam de asselvajado ou assilvestrado, não devem ser removidos de áreas urbanas para abrigos de ONG ou qualquer outro lugar. “Confinados, nunca serão domesticados e a possibilidade de desenvolver doenças pré-existentes é enorme. O fator emocional, o estresse, destrói o sistema imunológico do bicho. A vida de um gato de temperamento forte em confinamento é um inferno, inclusive para os tratadores. Rapidamente, os bravos e saudáveis devem ser devolvidos, os bravos e com problemas de saúde devem ser retidos para tratamento e, depois de curados, devolvidos. Os filhotes passíveis de adoção devem ser abrigados”, reforça.

Além do estresse, Jéssica expõe que os gatos afastados à força de suas colônias podem ter a imunidade afetada, o que os predispõe a doenças. “Não só isso, podemos citar, também, a senilidade, alimentação inadequada, presença de verminoses, doenças virais, entre outros. Os gatos têm fortes instintos e ligação com os locais que escolhem para serem seus lares e a liberação ou transferência para um local estranho não é humanitária, a menos que sejam seguidos procedimentos extremamente cuidadosos para realocar o animal. Portanto, deve-se incentivar a doação daqueles animais com características menos ferais após uma análise bem criteriosa”, frisa.

A veterinária corrobora o tópico, afirmando que um gato feral tende a ter medo das pessoas e manter extrema distância, a menos que seja alguém que tenha algum convívio que lhe transmita um pouco de confiança. “Isso dificulta a interação e manejo, deixando ainda mais difícil sua possibilidade de adoção. Há uma possibilidade, não descartada, de que estes animais, antes de ferais, eram gatos domiciliados, que tenham sido perdidos ou abandonados, mas, ao longo do tempo, terem revertido seu estado a selvagem ou devido a sua descendência ser de gatos selvagens não domiciliados”, discorre.

Para Pedroso, o CED não é, exatamente, a melhor, mas a única forma de tratamento possível para o assunto no meio urbano. “O extermínio, além de cruel e não mais aceito social e legalmente, é ineficaz, uma vez que possibilita o efeito vácuo, fenômeno que pode ser assim descrito: uma vez removido o grupo de indivíduos de uma colônia, sem que ocorram modificações no ambiente, um novo grupo de indivíduos vai ocupar o espaço deixado e teremos uma nova colônia”, cita.

O CED também é positivo para a população, já que
os gatos capturados são vacinados contra raiva antes
de serem devolvidos (Foto: reprodução)

Na visão de Jéssica, o Brasil padece de leis efetivas contra o abandono animal, bem como força de fiscalização legislativa. “Além disto, carece de investimentos municipais para resoluções de superpopulações. A guarda irresponsável de animais de estimação explica a maior parte do excedente de cães e gatos errantes nos País. A falta de planejamento familiar e financeiro no momento de aquisição de um animal é um dos principais responsáveis pelo abandono. Na prática, observa-se, também, que muitos animais são deixados por seus tutores devido ao nascimento filhos, o desenvolvimento de alergias, mudança de residência, distúrbios de comportamento do próprio animal também são relatados como causas de abandono. Assim, o CED é uma alternativa efetiva de controle desses animais abandonados e vem sendo empregado com sucesso em outros países, como EUA e Inglaterra. Em alguns lugares, infelizmente, a eutanásia em massa de animais abandonados e saudáveis ainda é considerada um método de controle populacional”, denuncia.

A população também ganha. Como apontei no início desta reportagem, o CED traz vários benefícios para a comunidade como um todo, dentre eles, o cuidado com a Saúde Pública. Isso é explicado por Jéssica: “Um exemplo disso, é o controle biológico de roedores, mantido já que os gatos proporcionam uma forma natural de controle de ratos. O descontrole populacional submete os animais a condições de sofrimento, fome, abandono, estresse, traumas, diminuição de defesas imunológicas, entre diversos outros. Assim, torna-os susceptíveis e vulneráveis a doenças transmitidas entre eles e para o homem, doenças denominadas zoonoses, como a raiva, esporotricose e toxoplasmose. Sem contar que muitas pessoas da comunidade se incomodam com as marcações de territórios, reproduções indesejadas, arranhadura de objetos, eliminação inapropriada de urina e fezes, brigas e vocalização noturna. Isso gera, de certa forma, uma grande preocupação comunitária e de Saúde Pública, portanto, cabe ao serviço público intervir junto à comunidade, por meio de medidas preventivas, como a promoção de campanhas educativas sobre a guarda responsável e o não abandono, a importância da esterilização e proteção vacinal, tendo como objetivo preservar a saúde da população conciliando Saúde Pública e bem-estar animal”, analisa.

Um dos pontos positivos do CED para a população, também, citado por Pedroso é que todos os gatos de colônia que passam pelo método são vacinados contra raiva. “Posso citar mais um importante: após uma colônia ser controlada com o método, a atividade sexual dos indivíduos zera e, com isso, as brigas e barulhos decorrentes do ritual de acasalamento e cobertura da fêmea pelo macho cessam. Como sabemos, o barulho é altamente incômodo para a população humana, sendo esse fator motivo de agressões contra animais de rua e domiciliados. O CED é tão bom e eficaz que diminui a ocorrência de crime de maus-tratos”, complementa.

Pedroso acredita que o método tenha ganhado notoriedade nos últimos anos. “Cinco anos atrás, quase nenhuma protetora ou ONG tinha ouvido falar dessa forma de tratamento. Hoje, a maioria sabe que existe e procura informação para sua utilização correta. O que acontece é que o poder público e as universidades estão em descompasso com a sociedade. Os cursos de Medicina Veterinária não formam cirurgiões médicos capacitados na castração minimamente invasiva, indispensável no processo de CED e, com raras exceções (o DVZ-SP é uma delas), as vigilâncias sanitárias e secretarias de bem-estar animal das prefeituras brasileiras não têm equipes capacitadas para aplicar o método nas cidades”, lamenta.

Finalizando, Jéssica acredita que o método é pouco disseminado e as autoridades não dão a efetiva importância para o mesmo. “Conheci o método por meio de uma palestra da ONG Bicho Brother e, em conjunto com minhas queridas amigas Michele Campos, Viviane Bazanelli e Liliane Monteiro, decidimos estudar mais profundamente em um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Entretanto, houve muitas dificuldades, principalmente, em relação bibliográfica sobre o assunto. Isso nos motivou a realizar a adaptação do The guide to trap-neuter-return for the feral cat caretaker, disponível neste link", indica.

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