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Eutanásia requer preparo emocional do veterinário e do tutor

Certas medidas são essenciais para a saúde mental de ambos os envolvidos

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Muitos são os fatores de estresse na rotina da clínica veterinária: extensas horas de trabalho, seguidas de plantões, clientes mal-educados, a dificuldade em descobrir e tratar determinadas doenças, falta de reconhecimento, entre outros. Mas, uma das coisas que podem afetar, mentalmente, o médico-veterinário é a prática da eutanásia. Assim, neste Dia Mundial da Saúde Mental, conversamos com a médica-veterinária e psicóloga, que ministra palestras sobre a temática, Renata Bottura.

Optar pela eutanásia, segundo a profissional, nunca é uma escolha simples e esta decisão será rotineiramente tomada em conjunto com o tutor do paciente, já que a palavra final é sempre dele. “Mas cabe ao médico-veterinário auxiliar, ao máximo, esta família e, hoje em dia, já existem critérios mais objetivos a serem utilizados para determinar a ‘hora certa’, muito além dos ‘achismos’”, revela.

A primeira questão a ser observada, segundo Renata, é o próprio quadro clínico do paciente: como sua doença está evoluindo, os progressos em relação aos tratamentos adotados e os que ainda podem ser realizados. “Lembrando que nosso foco principal é a qualidade de vida daquele animal e nosso grande intuito é sempre evitar o sofrimento maior. Mas também devemos levar em consideração a situação de cada tutor: o comprometimento com o tratamento, tanto nos aspectos afetivos envolvidos, quanto, por exemplo, sua situação financeira; o tempo que dispõe para cuidar daquele paciente, ou seja, sua dedicação de modo geral e o nível de sofrimento envolvido. São várias as nuances a serem observadas”, argumenta.

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Veterinários também são capazes de sentir tristeza
e ter dificuldades para lidar com perdas
(Foto: reprodução)

Segundo a especialista, os veterinários também precisam considerar questões da ordem de Saúde Pública, dependendo da doença que estiver implicada, como um caso de raiva animal ou leishmaniose, por exemplo. “Assim, não existe um momento muito claro e definido que nos diz quando ter esta conversa com os tutores. Mas, hoje em dia, já disponibilizamos de instrumentos, felizmente, que podem auxiliar essa tomada de decisão: um deles é a escala 5H2M, criada pela oncologista veterinária americana Dra. Alice Villalobos, que afere padrões bem objetivos, juntamente com o tutor, para averiguar o dia a dia do animal e decidir, então, se o tratamento segue como está, se o paciente pode ser encaminhado, muitas vezes, para os cuidados paliativos (outra opção não extremista já praticada na nossa área) ou se, de fato, a eutanásia já deva ser considerada. O que precisamos, como classe profissional, é saber que estes recursos existem e nos apropriar deles com o intuito de amenizar uma carga de trabalho já tão notoriamente exaustiva”, opina.

Preparo emocional. Como observado por Renata, veterinários também são seres humanos, capazes de sentir tristeza, ter dificuldades para lidar com perdas, que criam laços e expectativas em relação aos seus pacientes, inclusive. “Os animais por si só apresentam características ‘lúdicas’ que despertam muito interesse por eles, ou seja, o investimento afetivo pode ser grande em um dado paciente; daí, impossível não considerar uma situação de sofrimento para o próprio profissional. Mas esse preparo, pelo menos até os dias de hoje, praticamente não ocorre na graduação da Medicina Veterinária. Não temos, na grade curricular das grandes universidades, Psicologia ou Tanatologia, por exemplo, o que já seria um começo. Menciono essa questão apenas para dizer que médicos em geral não são treinados a lidar com a morte e isso traz danos irreparáveis, muitas vezes, para ambos: paciente e profissional”, aponta.

Renata lembra que a morte faz parte do processo de vida e se, como profissionais, os clínicos aceitarem isso, permanecerão “inteiros” ao longo do tratamento, quer ele leve à cura, quer ele almeje apenas qualidade de vida. “Neste caso, o médico não ‘perde’ um paciente. Essa vida foi tratada da maneira mais digna possível para o momento, com os melhores recursos para aquela situação”, reforça.

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Veterinário deve ser firme e constante ao conversar com
os familiares quando chegar o momento da eutanásia
(Foto: reprodução)

A psicóloga ainda alerta que, hoje, os profissionais da Medicina Veterinária também estão adoecendo e é preciso cuidar deles com certa urgência. “Outros recursos que são muito indicados, na tentativa de preservar a saúde mental da classe são: fazer psicoterapia, praticar algum esporte, ter bons amigos, tudo que ajude a lidar com o estresse em última instância. E, no ambiente de trabalho, ajuda bastante ter aquele colega, com quem se possa ‘desabafar’ logo após a morte de algum paciente, caso a tristeza esteja incontrolável – para que servem os amigos, correto?”, indaga.

Problemas psicológicos. Por conta, muitas vezes, da falta de exteriorizar esse sofrimento, o profissional acaba passando por transtornos mentais. De acordo com Renata, existe um estudo, de David Bartram, do Grupo de Saúde Mental da Universidade de Southampton School of Medicine (Inglaterra), que concluiu que os médicos-veterinários têm uma taxa de suicídio quatro vezes superior à população geral e duas vezes superior a outras profissões. “Várias são as causas conhecidas para esse quadro: longas jornadas de trabalho, convivência com casos de maus-tratos, remuneração baixa, mas já é sabido, também, que a realização frequente de eutanásia é um importante fator estressor e grande potencializador para o desenvolvimento da Síndrome de Burnout e Fadiga por Compaixão”, discorre.

Entretanto, no caso da eutanásia em si, alguns fatores devem ser levados em consideração, de acordo com Renata: o contexto em que é realizada (se em animal sadio x animal em estágio terminal de uma doença crônica, por exemplo); quantidade de eventos realizados por dia/semana/mês; a atitude pessoal do profissional; suporte social disponível ao profissional por parte da chefia/estabelecimento onde trabalha, entre outros. “Esses aspectos devem ser observados com muita atenção, no sentido de adoção de medidas profiláticas”, avalia.

Pela natureza de suas atividades já se sabe que a classe veterinária é considerada uma população em risco para o desenvolvimento de transtornos de estresse pós-traumático, como os citados acima pela profissional. Sendo assim, é preciso cuidar desta questão com certa prontidão. “Mas, apesar da urgência, felizmente, há muito que pode e deve ser feito para melhorar esse panorama e me parece que o interesse geral pelo assunto já é um grande sinal de avanço nesse sentido”, cita.

O procedimento. Na visão de Renata, se, antes, a eutanásia parecia ser um assunto pertinente somente ao paciente, nos dias de hoje, já ficou bem estabelecido que ela impacta emocionalmente não só toda a equipe veterinária, bem como os tutores. “O veterinário assume, nesta tríade, papel extremamente relevante e me parece, também crucial, que o currículo na graduação seja revisto, para que as instituições formem médicos bem preparados para tamanha responsabilidade! Psicologia, tanatologia, técnicas de comunicação (inclusive de más notícias), noções de Saúde Única, enfim, diante das demandas atuais, precisamos de novos ‘instrumentais’ de trabalho, para não adoecermos na execução de nossas atividades diárias. Agora, temos uma família como um todo que precisa de nós. Nossa tarefa é por demais nobre, assim como nossa saúde”, salienta.

Em relação aos tutores, Renata afirma que a eutanásia não necessariamente causa maior impacto do que mortes por causas naturais, já que muitos entendem o procedimento como um ato de alívio, paz e, mesmo, necessidade para seus pets. “Desnecessário mencionar o enorme sentimento de impotência que também desperta nos mesmos, mas duvido que se torne ‘mais traumática’ que o processo da morte natural. Este, dependendo da doença instalada, pode ser acompanhado de muita dor e desconforto para o paciente, levando a vocalizações, alterações neurológicas, como convulsões, alterações do apetite, etc. Isto sim costuma ser bastante traumático para os familiares”, compartilha.

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Renata Bottura é psicóloga formada pela FMU e
médica-veterinária formada pela Unisa (Foto: divulgação)

Faz parte do papel do veterinário informar o tutor sobre o a possibilidade de realização do procedimento, mas, muitas vezes, é o próprio tutor quem aborda o assunto com o profissional, como comentado por Renata: “Tenho percebido que muitos colegas receiam iniciar a conversa com os familiares do paciente, o que, em certas ocasiões, prolonga a tomada de decisão e todo o sofrimento que a acompanha, na minha opinião. Independentemente da decisão em si, de fazer ou não a eutanásia, defendo a conversa que irá redefinir o curso do tratamento e cabe a nós, médicos responsáveis pelo paciente, tomar a iniciativa. Nós somos o ‘maestro’ aqui, diante de tantos tão importantes nesta orquestra”, elucida.

Para a especialista, o sentimento que deve reger toda essa fase é o de empatia. “Muitas vezes, a correria da rotina nos faz ‘esquecer’ o quão difícil pode ser este momento para o tutor, dependendo do tipo de relação que ele tiver estabelecido com aquele pet, então, as palavras devem ser utilizadas com mais cautela. Todos nós sabemos como é perder alguém muito querido, acredito”, pondera.

Se chegado o momento de realizar o procedimento, certos cuidados devem ser tomados, como orientado pela profissional: a equipe deve reservar tempo, na medida do possível, para poder conversar e estar com a família neste momento tão delicado; deve-se tentar levar a família e o paciente para uma sala reservada, onde possam ter privacidade para as despedidas e choros se houverem, livre dos “entra-e-sai” de profissionais; o tom de voz da equipe deve ser firme e constante ao conversar com os familiares, olhando-os nos olhos, e os celulares devem estar no modo vibratório. “Pelo bem do paciente, sugiro que alguém da família fique com ele no momento final. Se isso for completamente inviável, o clínico deve solicitar uma peça de roupa utilizada pelo tutor para que o animal tenha alguma referência conhecida no momento do procedimento. Lembre-se: como seres sencientes que são, eles também sentem alegria, ansiedade, medo e tristeza. Deixe disponível para os familiares, durante todo o momento da conversa e/ou procedimento, uma caixa de lenço: tende a ser bastante confortante e mostra que nos importamos”, recomenda.

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