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Especialista aponta causas para elevada taxa de suicídio entre veterinários

Personalidade está mais ligada ao desejo de cessar a vida do que a profissão em si

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Suicídio. A palavra possui oito letras, mas sua realidade e impacto alcançam um número maior: cerca de 800 mil pessoas se matam por ano, no mundo todo. A cada trinta segundos, alguém está se matando e essa é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 44 anos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, Suíça). Os dados ainda revelam que, no Brasil, a cada 100 pessoas, seis se suicidam por ano e é mais frequente entre os homens, porém as mulheres tentam mais do que eles.

Onde o médico-veterinário entra nesse assunto? Um estudo, realizado na Inglaterra, te responde: esses profissionais possuem quatro vezes mais chances do que a população geral e o dobro de chances de outros profissionais da área de saúde de tirarem a própria vida. O médico-veterinário com conhecimento em psicologia e psicanálise, Marco Antônio Gioso, comenta que uma das principais causas para essa questão é a frustração com a remuneração. “Algumas pessoas citam estresse e pressão, mas a pressão possui duas origens: a externa e a interna. Já percebeu que muitas pessoas são muito estressadas com elas mesmas? É sua personalidade, mas também existem coisas que vêm de fora”, afirma.

Assim, é estressante ser médico-veterinário, segundo Gioso, pois esse profissional lida com vida, com emergência e se “errar” pode matar. “No entanto, há fatores internos, que são as doenças psiquiátricas. A pessoa já possui e pode ser mais ou menos resiliente, ter uma atitude mental forte ou não. Ela não é nem melhor e nem pior, apenas tem características positivas e negativas”, explica.

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O ambiente de Medicina Veterinária é mais estressante
porque está relacionado à vida e à morte (Foto: reprodução)

Seu eu. Ainda dentro desse quesito, existem, como cita o profissional, pessoas com autoestima e autoconfiança, que são coisas diferentes. “Autoestima é o valor que eu dou para mim, o que eu acho de mim mesmo. Autoconfiança é um comportamento, é o que eu mostro de mim. Posso ter uma autoconfiança e, no fundo, ter baixa autoestima e tudo isso são questões internas”, discorre.

O que também pode influenciar na vontade de viver ou não do veterinário é sua motivação, sendo assim, Gioso ensina que é preciso se perguntar “O que me fez acordar e vir para a clínica? O que me faz acordar todos os dias e viver?”. Segundo ele, há pessoas que têm uma motivação muito positiva e outros mais negativa.

Contornando situações. O veterinário pode ser um locus de controle (LoC) de conflitos externos ou internos. “Você culpa alguém ou culpa a si mesmo? Algumas pessoas podem ter locus de controle tão fortes, que se culpam por tudo e isso é negativo. Mas locus de controle externo muito fortes também são complicados, pois ele sempre coloca a culpa nos outros”, aponta.

O profissional ainda afirma que o desejo suicida pode estar relacionado a doenças mentais, sendo a depressão a mais comum. “Aproximadamente, um terço das pessoas se matam em decorrência da depressão. Isso é tão comum que uma em cada quatro pessoas tem ou terá essa doença, que é três vezes mais comum em mulheres”, aborda. A depressão bipolar, segundo Gioso, tem um risco maior, que é quando a pessoa sofre do transtorno bipolar, ou seja, é um maníaco depressivo. “A pessoa, de manhã, está bem e, à noite, está deprimida. Essas são as que mais se matam. O alcoolismo, ainda, corresponde por 18% dos casos de suicídio, a esquizofrenia por 14% e os transtornos de personalidade, como borderline e antissocial, por 13%. Nesse caso, a chance de se matar não é porque ele é veterinário, é porque ele, como pessoa, pode ser deprimido”, assegura.

Com isso, existem duas coisas importantes de serem frisadas, na visão de Gioso: a intencionalidade, que é a consciência e a voluntariedade no planejamento do ato suicida, e a letalidade, que é o grau de prejuízo físico que a pessoa se aflige. “Em alguns casos, a vontade de morrer é fraca, apesar de voluntária, então, o método é pouco prejudicial, por exemplo, cortar o pulso. Essa atitude mata muito raramente”, revela.

Outra explicação. Gioso expõe que os veterinários sofrem de fadiga emocional, por depressão e por outras questões psiquiátricas de duas a três vezes mais que o restante da sociedade. Fatores como estresse, causa financeira, horas erráticas de trabalho, cobrança alta dos tutores, entre outros, são fortes influenciadores. “Isso porque são perfeccionistas, odeiam perder e veem a morte mais frequentemente do que a população em geral, até porque nós sacrificamos animais”, menciona.

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Reclamações de clientes em relação ao preço da
consulta ou insatisfação pelo atendimento são
fatores estressantes (Foto: reprodução)

Por outro lado, um estudo mencionado pelo profissional aponta que a eutanásia é vista como algo positivo pela classe veterinária. “A pesquisa mostra que o veterinário a enxerga como uma coisa boa, pois irá tirar o sofrimento do animal e da família. Muitos clínicos que se mataram ou consideraram se matar, utilizaram muito a frase ‘Se eu fosse um animal sofrendo, gostaria de ser eutanasiado’ e isso pode ser uma dica de alguém que quer se matar”, considera.

O cliente também pode ser um influenciador, tanto positivo, falando bem do profissional, quanto negativo, falando mal. “Muitas vezes, quando um animal morre na anestesia ou na cirurgia, o veterinário tem dificuldade de pedir desculpa, porque ele acredita que estará assumindo o erro. Mas, pense se o seu pai ou seu filho morre em uma cirurgia, você vai querer que o médico peça desculpa, não pelo ato, mas pelo o que você está sentindo”, compara.

Porém, o profissional deve ter em mente que, em casos turbulentos que ocasionem denúncias e processos contra seu trabalho, calúnia e difamação é crime, como lembra Gioso. “É preciso lembrar de quatro coisas muito importantes se você for difamado: ninguém ou nada poderá diminuir o seu valor real. Você sabe como você é, sabe do seu caráter; nada e ninguém pode te fazer se sentir magoado ou depressivo; o tempo é o maior aliado da verdade, nenhuma mentira ou calúnia resistem a ação do tempo; sua melhor resposta é a sua lição de vida dentro da empresa”, orienta.

Seja solidário. Se você tem um colega veterinário deprimido, existem algumas formas de ajudá-lo a sair dessa situação, de acordo com Gioso. Em primeiro lugar, não deve nunca julgar a pessoa e sempre ouvir e praticar reforço incondicional positivo. “Caso ele te ligue para desabafar a vontade de cometer o suicídio, você deve saber duas coisas: primeiro, se ele está em perigo eminente (em uma ponte, se está na rua ou em casa, etc) e, segundo, quem é a pessoa que ele mais ama. Se souber isso, precisa achar um momento na conversa para conectar o pensamento em quem ele ama”, recomenda.

Nesses momentos, é necessário sentir a dor da pessoa, porque, se você nunca pensou em se suicidar, não sabe o que é a dor da intenção do suicídio. “Mas, quando sabe o que está passando na cabeça da pessoa, precisa deixá-la perceber que você entende que a vida é dura. Às vezes, ela até pergunta ‘o que você acha que eu deveria fazer?’ e é aí que você vai se conectando e pode fazer a diferença”, endossa.

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