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abr 2, 2013 Clínica Médica

Reportagem – Emergência e urgência: Como se preparar?

O que considerar emergência e urgência em um atendimento? O que pode ser um sinal de doença grave ou de algum acidente? Como se preparar para os primeiros socorros?

 

Os primeiros socorros de cães e gatos, assim como acontece com os seres humanos, também são determinantes para que o animal se recupere. E para esses momentos, os médicos veterinários precisam estar preparados e equipados, além de ter a consciência de que sua conduta será decisiva.

E para falar mais sobre a preparação do clínico para os atendimentos de emergência e urgência, a equipe Cães&Gatos conversou com o médico veterinário, graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Rodrigo de Castro Valadares, atual professor do CPT Cursos Presenciais.

Ele conta que muitas pessoas confundem estes dois conceitos: emergência e urgência, sendo seu entendimento fundamental no atendimento a pacientes críticos. “Urgência é um fato onde uma medida corretiva deve ser realizada tão logo seja possível. Emergência é um fato que não pode esperar nenhum período para que seja tomada a devida medida corretiva, pois geralmente existe risco de morte iminente. Saber diferenciar estas duas situações auxilia a triagem de pacientes em situação crítica”, sublinha.

Rodrigo informa ainda que não existe um sinal clínico que diferencie e defina urgência e emergência. “É dever do profissional saber realizar esta triagem na ocasião do atendimento. Entretanto, para exemplificar, um animal que necessite de uma rápida intervenção para estabilizar seus sinais vitais, como um suporte de ventilação mecânica, é um animal crítico de emergência. Já um animal que sofreu uma fratura de mandíbula, e não apresente hemorragia ativa, é um animal crítico de urgência”, explica.

Rodrigo destaca a importância do preparo do médico veterinário para emergências

Rodrigo destaca a importância do preparo do médico veterinário para emergências

Primeiros socorros
No pronto atendimento, até a estabilização do paciente, Rodrigo ressalta que o médico veterinário deve se preocupar com a estabilização do sistema cardiorrespiratório e, portanto, realizar exames rápidos que ajudem a conhecer a função deste sistema. “A oximetria de pulso fornece um índice de oxigenação. A pressão arterial e a dosagem de lactato sanguíneo fornecem índices de perfusão. Estes são exemplos de exames que devem ser realizados no ato do atendimento, no suporte avançado de vida. Outros exames mais específicos ficam a critério do médico veterinário após a estabilização hemodinâmica do paciente”, afirma.

Rodrigo conta que os envenenamentos e os politraumatismos são as ocorrências mais comuns em sua experiência, tanto em cães quanto em gatos. “Outras causas incluem problemas respiratórios, urinários e reprodutivos”, informa.

No que diz respeito a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), Rodrigo frisa que sempre há o que avançar quando o assunto é medicina. “Alguns avanços já consagrados na medicina humana já estão disponíveis para os pacientes veterinários, como por exemplo, a ventilação mecânica prolongada, a hemodiálise, as técnicas de monitorização hemodinâmicas invasivas e a nutrição clínica do paciente crítico, aumentando muito as chances de alta hospitalar”, conta.

Entretanto, Rodrigo explica que ainda o que limita a terapia intensiva veterinária são os custos para o proprietário. “Talvez, com o aumento no número dos profissionais especializados na emergência, o serviço se torne mais popularizado e os custos mais acessíveis”, acredita.

Vômito e diarreia
De maneira geral vômitos e diarreia não são sinais de emergência. Entretanto, quando vêm acompanhados com sangue vivo podem mostrar uma situação de emergência. A médica veterinária residente em Clínica Médica de Pequenos Animais – Clínica Escola de Medicina Veterinária – Universidade Tuiuti do Paraná (UTP, Curitiba/PR), Mayara Tammi Bansho, explica que há casos em que o vômito e a diarreia podem ser considerados emergência. “Isto pode ocorrer quando estes sinais são agudos, com vários episódios ao longo do dia e o animal rapidamente ficar prostrado, se há presença de sangue no vômito e/ou diarreia e, especialmente, quando ocorre em filhotes.”, frisa.

Mayara, em atendimento na clinica da UTP

Mayara, em atendimento na clinica da UTP

Mayara, informa existem várias doenças que podem causar vômito e diarreia: viroses (como parvovirose, cinomose, coronavirose, o que é comum em cães filhotes não vacinados, panleucopenia felina), leptospirose, parasitoses, intoxicação alimentar, troca abrupta de ração, pancreatite, ingestão de corpo estranho, administração de medicamentos não indicados para cães e gatos, insuficiência renal aguda ou crônica, piometra, cetoacidose diabética e neoplasias. Em casos agudos, o paciente pode ficar rapidamente desidratado, hipovolêmico, e, em casos graves entrar em choque e ir a óbito. “Em casos crônicos o paciente pode apresentar perda de peso, deficiência nutricional e agravamento da causa primária do vômito e diarreia”, explica Mayara.

Assim como os seres humanos, o pet deve ser hidratado. “É comum o paciente desidratar após apresentar vômito e diarreia e por isso precisa ser reidratado. A maioria das vezes recomenda-se realizar fluidoterapia intravenosa até cessar os sintomas e ocorrer a estabilização do paciente. Para isto, o animal deve ficar internado”, observa Mayara.

Após o período, recomenda-se reintroduzir a alimentação lentamente, em pequenas porções, observando se o animal não irá apresentar novamente vômito e diarreia. “O tipo de alimento varia de acordo com cada caso, podendo ser rações comerciais próprias para o trato gastrointestinal ou até mesmo alimentação caseira, que deverá ser prescrito pelo veterinário”, avalia Mayara.

Ao coletar todas as informações possíveis a respeito do histórico do paciente e a realização do exame físico completo, de acordo com a suspeita, frisa Mayara, talvez seja necessário solicitar vários exames para auxiliar no diagnóstico, como exame de fezes, exame de sangue, urinálise, ultrassonografia abdominal, radiografia abdominal (simples ou com a utilização de contrastes) e endoscopia. “Vômito e diarreia são sinais clínicos comuns em cães e gatos e geralmente inespecíficos, podendo ocorrer devido a um distúrbio gastrointestinal primário ou até mesmo em consequência de uma doença metabólica”, destaca.

Preparo
As universidades, de maneira geral, não preparam os estudantes para situações de emergência. Na avaliação de Rodrigo, não responsabilizando totalmente a universidade, mas infelizmente a graduação em medicina veterinária não oferece uma preparação adequada no atendimento de emergência e cuidados críticos para cães e gatos. “Neste contexto, o CPT Cursos Presenciais preparou um curso de Emergências e Pronto Atendimento para suprir esta lacuna na medicina de pequenos animais”, frisa.

Ele explica que o curso tem como principal objetivo trabalhar a abordagem sistematizada do paciente crítico em situação de urgência ou emergência, seguindo as orientações para o suporte básico e avançado de vida, bem como a monitorização visando a total recuperação e alta hospitalar. “Para alcançar esse objetivo, o curso é dividido em uma parte teórica e outra prática, onde o aluno tem a oportunidade de treinar o atendimento de emergência, realizar procedimentos cirúrgicos como traqueostomia e colocação de dreno torácico, além de treinar o uso do desfibrilador cardíaco”, informa.

O aluno é preparado para estabilizar o paciente crítico no momento de sua admissão em um pronto atendimento. “As orientações trabalhadas no curso são fundamentadas em evidências científicas e consenso internacional publicadas em periódicos científicos mais respeitados da área de medicina de emergência veterinária”, garante.

Para se ter uma ideia, Rodrigo conta que menos de 6% dos cães e gatos que desenvolvem parada cardiopulmonar recebem alta hospitalar. Na medicina humana esse número chega a 20%. “Portanto, com treinamento adequado, é possível melhorar o índice de sucesso na medicina veterinária”, ressalta.

Aula sobre emergências: profissional treinado faz a diferença

Aula sobre emergências: profissional treinado faz a diferença

O perfil dos alunos do curso ministrado por Rodrigo é variado, equilibrando entre graduandos e graduados, ambos buscando um diferencial na medicina de emergência. “É nítida a satisfação de nossos alunos ao final dos nossos cursos, onde estes declaram seu contentamento e entusiasmo em colocar em prática o que aprenderam”, afirma.

Diante de um animal, cão ou gato, em situação crítica de emergência ou urgência, alerta Rodrigo, o tempo é um dos principais determinantes no prognóstico. “Do outro lado do elo encontra-se a clínica ou hospital veterinário que devem estar devidamente equipados para lidar com a situação. E, por último, a equipe de profissionais de emergência precisa estar treinada e entrosada para que o paciente possa usufruir dos avanços que a medicina veterinária pode oferecer”, conclui.

Fonte: Revista Cães&Gatos – edição 158 – Por Mariana Vilela, sucursal de Curitiba (PR)