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Cruzamento induzido: qual o preço pago na busca pelo gato perfeito?

Doutora explica ação e ressalta os problemas causados pela mesma

Wellington Torres, em casa

wellington@ciasullieditores.com.br

Os felinos, em geral, são animais que despertam muita admiração e curiosidade na humanidade, vide toda a cultura do Egito antigo, reconhecido como berço dessa aproximação. A partir disso e ao discorrer da evolução humana, num período mais próximo de onde nos encontramos hoje, se fez muito comum, pessoas com grande poder aquisitivo, desfilarem por avenidas, como a Champs-Elysé, em Paris, com um guepardo na coleira, por exemplo.

Contudo, os levantes em prol da preservação animal, que se iniciaram durante a década de 1970, inviabilizaram tal prática, assim como transformaram a visão sobre a posse de grandes felinos e a possibilidade de comprá-los como pets. Ação que pode ter direcionado o interesse de criadores de gatos na busca pelo felino doméstico “perfeito”.

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A cantora e dançarina Josephina Baker
caminhava pela Champs-Elysé com um
guepardo em 1920/1930 (Foto: reprodução)

Pelagem que possa remeter a tigres ou tão densas quanto de um leopardo-das-neves, a reprodução dos gatos domésticos, como explica a Dra. Meire Maria da Silva, atual coordenadora do curso de Medicina Veterinária do Unipê (Centro Universitário de João Pessoa), em sua maioria, “foram desenvolvidas de modo a ressaltar algumas características desejadas e inibir outras indesejadas dos cruzamentos”.

Segundo ela, essas raças apresentam grande variedade de cores e padrões e podem ser divididas em três categorias baseadas nas características do pelo: longo, curto e ralo. "Essa pelagem pode, ainda, ser separada em lisa ou ondulada com variações intermediárias. Já a cor dos olhos dos felinos domésticos pode, também, estar relacionada a raças específicas”, contextualizou a médica-veterinária.

De acordo com ela, nos últimos 20 anos, “o cruzamento natural entre raças diferentes de gatos vem sendo substituído por um número expressivo de novas técnicas de reprodução assistida, como inseminação artificial (IA), transferência de embrião, fertilização in vitro, micromanipulação de gametas e embriões, sexagem de embriões e sêmen e, até mesmo, transferência nuclear de célula somática estão sendo desenvolvidas para gatos domésticos”.

Tais técnicas para criação de novas raças ou preservação de raças já existentes também são realizadas com a finalidade de se obter mais filhotes de pais selecionados, "garantindo a variabilidade genética e reduzindo o intervalo entre as gerações", explicou. 

Neste contexto, a doutora levanta que a primeira prenhez de uma gata doméstica após IA foi relatada em 1970 e que, atualmente, segundo a The International Cat Association (TICA), existem, aproximadamente, 46 raças de gatos domésticos registradas, como Abissínio, Angorá, Balinês e Bengal. Dentre essa quantidade, Meira ainda pontua que muitas delas foram originadas de cruzamento entre raças diferentes. “Algumas propositais pelo homem e outras por cruzamento natural”, contou.

Questionada em como esse tipo de ação pode afetar o desenvolvimento das espécies, a médica-veterinária pondera:  “Podemos diferenciar algumas características específicas como desenvolvimento de algumas raças. Umas não afetam a espécie, porém, outras sim, na reprodução”, explicou. Segundo ela, ao utilizar como exemplo a raça savannah, animal híbrido nascido do cruzamento de um gato doméstico (felis sylvestris catus) e o serval (Leptailurus Serval), em sua maioria, os animais, por serem resultado do cruzamento de espécies diferentes, são estéreis.

“Muitos gatos são abandonados devido a algumas doenças genéticas desenvolvidas durante os cruzamentos de raças bem distintas, muitas delas podem ser mortais, como a Síndrome Miastênica Congênita (CMS) nos filhotes entre o cruzamento de sphynx, devon-rex, e cornish-rex”, alertou a doutora.

A braquicefalia. Marca registrada dos gatos persas, a braquicefalia, muitas vezes, é uma característica ímpar na hora de escolher um felino. Mas será que ela é uma formação natural da estrutura óssea dos gatos?

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Outras raças que apresentam braquicefalia, são:
Brumês, Exótico e Himalaio (Foto: reprodução)

De acordo com a médica-veterinária, não. “A braquicefalia ainda é uma palavra desconhecida para muitos e determina uma má formação nos ossos da cabeça dos animais, fazendo com que o focinho deles se apresente de maneira achatada. Podendo ser o responsável por problemas que incluem desde a dificuldade de respirar até o desenvolvimento e amadurecimento mais lento dos neurônios. Este quadro é relativamente comum no mundo dos cães e gatos, principalmente, em função das muitas intervenções feitas pelos humanos no cruzamento das mais variadas raças ao longo do tempo”, aponta.

Como também pontuou a profissional, as “complicações respiratórias são, sem dúvidas, as mais comuns e notáveis na vida desses animais com braquicefalia. A estenose das narinas costuma ser uma ocorrência bastante frequente nos animais de focinho achatado, que ficam com as narinas estreitas demais para respirar normalmente, precisando, até mesmo, de cirurgias corretivas para contornar e diminuir o problema”, adiciona.

O que pode motivar essa ação? Meire da Silva apontou que existe mais de uma visão no mundo do cruzamento animal. Uma, referente ao melhoramento ou preservação (aplicado mais em gatos silvestres) da espécie e outra mais econômica. Quando menciona a questão economia, a médica-veterinária explica que a ação se dá por interesse de criadores e tutores. “Um exemplo bem característico de uma quantia alta de valores é da raça de gatos Ashera, que custa uma fortuna. Cada filhote dessa raça pode chegar a custar até 125 mil dólares, valor suficiente para comprar uma Ferrari”, exemplificou.

A raça é resultado do cruzamento de três espécies de felinos (Serval africano, Gato-leopardo da Ásia e do gato doméstico) e lidera a lista de gatos domésticos mais valiosos do mundo. Segundo Meire, no geral, “quem procura um animal assim está, muitas vezes, mais preocupado em ser dono de um espécime diferente ao invés de querer oferecer afeto e amor”. 

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Tipo de pelagem e coloração dos olhos são as
características mais requisitadas (Foto: reprodução)

Podemos evitar estes procedimentos? No que tange alguma lei ou código veterinário Meira contou que, no País, o que temos é baseado na Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 e na Lei nº 13.426, de 30 de março de 2017. Na primeira, há sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, já na segunda, é disposto sobre o controle de natalidade de cães e gatos, mediante esterilização permanente por cirurgia, ou por outro procedimento que garanta eficiência, segurança e bem-estar ao animal. A última tem como foco o cruzamento natural dos animais de rua.

“De forma geral, essa lei sofreu uma alteração para adicionar outro ponto que merece ponderação relacionado com o cruzamento consanguíneo de animais, prática comum realizada por alguns criadores. Essa proximidade genética pode afetar - de forma drástica - a saúde da ninhada resultante, pois as chances de um animal nascer com alguma doença genética são aumentadas, especialmente as doenças recessivas. Muitos criadores, na ânsia de repetir um padrão fenotípico, forçam a reprodução consanguínea. Por último, também foi incluído na proposição um dispositivo para coibir a prática de promover gestações excessivas que podem trazem malefícios à saúde da fêmea que irá gestar os novos filhotes”, explicou, afirmando que ainda não temos nada em específico para cruzamento artificial ou induzido entre raças de gatos domésticos.

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