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Comparativo entre alimentação crua e seca ainda geram embates

Falta de verba para pesquisas é um fator determinante para a resistência

Coloridas, com artes atrativas e até com frases que apelam para saúde e sabor. Assim são as embalagens de alimentos nos infinitos corredores dos supermercados. Mas o seu olhar percorre além do que é proposto pelos designers?

A composição dos alimentos tem se tornado mais notória nos últimos anos devido à tendência de adoção de hábitos mais saudáveis. O Conselho Brasileiro de Produção Orgânica (Organis, Curitiba/PR), mostra que 15% da população brasileira já opta por uma dieta à base de alimentos orgânicos. Mas a verdade é que nem sempre a composição é a prioridade na hora de buscar o produto ideal, e a premissa de que nós somos o que comemos, muitas vezes, não chega até os pets.

Essa relação tutor e dieta é apresentada no documentário intitulado PetFooled, que está disponível na plataforma da Netflix. O vídeo, produzido em 2016, tem pouco mais de uma hora de duração e traz o olhar de especialistas sobre a indústria de rações nos Estados Unidos. Entre os principais pontos contestados dentro desse mercado estão os componentes e a adoção da dieta inteiramente seca, que surgiu, de acordo com a produção, após a primeira guerra mundial.

O documentário aponta que esse tipo de ração foi adotada por conta de uma moratória sobre o uso de latas de metal para alimentos. Já que este material seria usado para a fabricação de munições, neste período. Diante deste cenário, a indústria precisaria se reinventar, passando então, a aderir à alimentação seca.

“Ninguém pensou naquele momento que fazer a ração seca e a forma que nós a processamos hoje, poderia ser um prejuízo para a saúde do cão. O milho e o trigo tornaram-se tão subsidiados e tão baratos, que são formas de fazer alimento para alguém que não pode dizer não”, relata a médica-veterinária, Bárbara Royal, no documentário.

Para alguns profissionais, como Bárbara, essa composição pode estar atrelada ao surgimento de diversas enfermidades. “Essas são coisas que causam excesso de peso, diabetes, artrite, infecções crônicas de pele, alergias e outras”, completa a profissional.

Em relação à composição, o vídeo faz menção a um recall ocorrido em 2007, quando um ingrediente tóxico contaminou as rações - a melamina. O contato com essa substância, segundo o documentário, levou milhares de animais ao óbito e levantou o debate: o que os pets estão ingerindo?

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Documentário expõe a rentabilidade das indústrias com
o fornecimento dos produtos (Foto: reprodução)

A discussão acerca do tema levanta diversas divergências entre os ocupantes dos dois lados deste verdadeiro “cabo de guerra”. Em uma das pontas, está a indústria, que se embasa nas pesquisas e defende a utilização do produto como forma de garantir as condições adequadas de sanidade.

A Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet, Brasília/DF), surgida há nove anos, pontua a alimentação como uma das maiores preocupações que envolvem o mundo pet. Na busca por qualidade, a entidade junto à especialistas do setor privado, público e acadêmico, lançou o Manual Pet Food, que é atualizado anualmente. A publicação, no entanto, de acordo com a entidade, visa a autorregulamentação.

“Hoje, o Brasil é um exportador competitivo de alimento completo para animais de estimação. Produzimos e comercializamos em sintonia com acordos internacionais e com o Certificado Sanitário Internacional (CSI), documento exigido para garantir a boa procedência dos insumos utilizados na fabricação do produto e o cumprimento das regras de higiene”, destaca a entidade em nota, que salienta também seguir os critérios estabelecidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), por meio da Secretaria de Defesa Agropecuária (DFIP, DIPOA e Vigiagro). 

A entidade ressalta reconhecer a existência de muitos defensores do fornecimento de alimentos crus para animais de estimação, devido à ideação de serem produtos mais nutritivos, mas pontua que “estudos clínicos comprovam que esse tipo de alimento não fornece todos os nutrientes necessários, além de possivelmente conterem bactérias perigosas aos pets e aos proprietários”. A associação também que afirma que “o documentário alega que o alimento caseiro é melhor para os animais de estimação, mas dá voz aos defensores do alimento caseiro, sem apresentar estudos clínicos que comprovem essas falas”. 

Uma matéria publicada esse ano no portal da Cães&Gatos mostra esse embate entre os acadêmicos sobre o melhor tipo de alimentação. O grande ponto entre ambos é justamente a pesquisa. Já que os especialistas que defendem a alimentação crua dizem encontrar dificuldades de patrocínio para este tipo de estudo.

“Pesquisas sobre alimentos crus não são realizadas pois custam milhões de dólares, então agora alguns veterinários integrativos estão trabalhando nisso, mas os veterinários tradicionais dirão que até verem a pesquisa não estão interessados em recomendar”, salienta a médica-veterinária no documentário.

A associação, que representa as indústrias, classifica que sem os estudos não é possível repensar a forma como a ração é produzida atualmente. “Caso se prove clinicamente e irrefutavelmente a superioridade da alimentação caseira, iremos rever nossas políticas. No entanto, o fato é que, até agora, isso não ocorreu”, reforça em nota.

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