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Braquicefálicos desenvolvem síndrome grave à saúde

Além de deformidades naturais, situação causa novas anormalidades nos pets

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Bulldog, Pug, Piquinês, Persa, entre outras raças animais, chamam atenção por conta de seu focinho achatado. Por conta disso, esses pets têm se tornado a preferência de muitos tutores, o que acaba aumentando a frequência na rotina clínica. O motivo? Estas raças, por conta da anatomia facial, apresentam dificuldade respiratória. Em casos mais graves, eles podem sofrer com a Síndrome dos Braquicefálicos.

O médico-veterinário e coordenador da especialização de Cirurgia de Tecidos Moles, da Faculdade Anclivepa (São Paulo/SP), Cauê Toscano, explica que, assim como muitas doenças presentes na rotina clínica, a Síndrome dos Braquicefálicos surge por conta da seleção racial. “Quando queremos selecionar alguma característica estética ou de comportamento, é preciso envolver certa endogamia e isso fixa características boas, porém algumas negativas também”, discorre. A síndrome causa alterações anatômicas no crânio do animal e resultam, de uma maneira ampla, dificuldade respiratória. “Esse bloqueio começa a compor a doença e, ao longo de sua evolução e da cronicidade desse caso, encontraremos casos mais graves até chegar em situações críticas e, inclusive, emergenciais”, menciona.

As deformidades primárias já nascem com o pet, segundo Toscano, e afetam o trato respiratório anterior, o que gera obstrução e exige esforço respiratório maior. “Isso motiva uma inflamação nas vias aéreas e na laringe e, depois disso, podem surgir alterações secundárias”, afirma.

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Enquanto o formato da narina de outras raças é
arredondado, dos braquicefálicos é apenas um risco, o
que causa dificuldade respiratória (Foto: reprodução)

Como comentado por Toscano, o tutor tem a ideia do ronco do animal como sendo algo normal dos braquicefálicos. “Porém, esse ronco pode ser sinal de um esforço exagerado ou de um palato alongado vibrando, então, é importante orientar o proprietário desde o começo. A atenção, desde filhote, é essencial para saber o que é normal ou não”, diz e adiciona uma dica que sempre dá a seus clientes: “Quando for realizar o procedimento de castração do animal, orientamos o tutor a aproveitar o momento para uma avaliação das condições do palato”.

Quais os tipos? Os pacientes portadores da síndrome chegam até a clínica em duas situações, segundo o profissional. “A não emergencial, basicamente, é a melhor da situação, porque podemos programar com tranquilidade o tratamento cirúrgico, temos tempo para realizar uma avaliação pré-operatória mais adequada e, geralmente, o paciente é mais jovem, o que significa que ele está saudável, tirando a parte respiratória”, cita. A alteração no manejo é indicada, nesses casos, para melhorar a qualidade de vida do paciente. “Esses pets não devem sair no sol, brincar ou se exercitar exageradamente, pois não podem passar calor”, adiciona.

Já na situação emergencial é importante lembrar, de acordo com Toscano, que o problema fundamental do animal é o ar, que não chega adequadamente aos pulmões. “É preciso estabelecer a via aérea, na maioria das vezes, por intubação e uma vez entubado, ventilamos controladamente. Temos, ainda, que tomar cuidado com a hipertermia se o dia estiver quente ou se o próprio paciente apresentar taquipneia”, indica.

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Cauê Toscano é coordenador da
especialização de Cirurgia de Tecidos Moles,
da Faculdade Anclivepa (Foto: C&G VF)

A saída para melhorar essa situação dos braquicefálicos é a correção da narina estenosada. Como explica o veterinário, existem diferentes técnicas, porém todas de fácil execução. “Realizamos uma plastia da cartilagem, onde pode ser feito um corte em cunha e, depois disso, uma suturação lateral ou remover o trecho final da cartilagem e trazer mucosa mais profunda para a região mais externa. O profissional deve aplicar a técnica que tem mais habilidade, porque ambas trazem bons resultados”, destaca.

Procedimentos. Toscano esclarece que a manipulação na região do palato causa inflamação e isso pode levar a um grande edema no pós-operatório, isso porque já era um local inflamado e, na observação da área, o profissional aperta em um segundo gatilho que faz a situação piorar ainda mais. “Assim, não utilizamos, normalmente, a eletrocoagulação com bisturi elétrico, porque pode lesionar a região e resultar em um pós-operatório mais complicado”, defende. Há, também, a possibilidade de realizar o procedimento com laser. “A técnica é bem rápida, sem grandes dificuldades, então, hoje, encaro como o melhor método para remover o palato mole alongado”, opina e adiciona que o laser não promove inflamação pós-cirurgia. “Porém, é importante lembrar que, algumas vezes, somente a cirurgia não vai melhorar todo o quadro clínico do animal”, salienta.

E depois? O pós-operatório exige bastante cuidado com o edema que estava lá e com aquele causado pelo cirurgião, segundo Toscano. “O animal precisa receber antibiótico, analgésico e anti-inflamatório tópico e deve ficar internado nas 48 horas seguintes da cirurgia. Alguns profissionais deixam uma compressa de gelo no local, antes de tirar o animal da anestesia. Eu não uso essa técnica, mas é uma possibilidade”, expõe. Ainda, deve ser oferecida uma dieta pastosa para que não haja lesão com o grão de ração.

A prevenção se destaca, também neste caso, como a mocinha da história. “O mais indicado é o tratamento precoce, operando o palato e a narina antes que ele entre na situação de síndrome e passe por alterações inflamatórias por conta da cronicidade do esforço respiratório. Múltiplas técnicas têm sucesso, por isso, a aplicação varia de acordo com o que o profissional tem mais familiaridade, equipamentos e expertise para fazer”, finaliza.

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