Eletroacupuntura
Primeiro trabalho no ocidente com sua utilização para obtenção de analgesia foi publicado em 1975
Por Daionety Aparecida Pereira *
O tratamento pela acupuntura não se restringe à inserção de agulhas no corpo, pois, para que o efeito da acupuntura seja ampliado, é necessário que se manipulem essas agulhas. A rotação da agulhas para direita ou para a esquerda, o aprofundamento e a superficialização da agulha, que podem ser feitos de forma rápida ou lenta, são procedimentos que levam aos efeitos de estimulação ou sedação obtidos pela acupuntura. Essa manipulação, de acordo com o efeito desejado, às vezes necessita ser feita de forma contínua por longo período de tempo, o que leva à exaustão do acupunturista e, consequentemente, a uma estimulação pouco uniforme. Buscando uma forma de tornar essa manipulação mais uniforme e eficaz sem exaurir o profissional que a aplicava, iniciaram-se pesquisas nessa área. Como os pontos de acupuntura estão sempre localizados em áreas da pele com baixa resistência elétrica, pensou-se que a corrente elétrica, que facilmente se transmitiria ao redor dessas áreas, seria uma boa forma de estimulação das agulhas. A eletroacupuntura, que é a aplicação de corrente elétrica nas agulhas de acupuntura, se desenvolveu a partir de 1950 e o primeiro trabalho publicado no ocidente, com a utilização de eletroacupuntura para obtenção de analgesia para execução de cesariana em uma vaca, foi publicado em 1975. Desde então, passou a haver uma grande interação entre a filosofia oriental e a visão científica ocidental e muitos estudos passaram a ser realizados, principalmente em relação à dor.
A eletroacupuntura tem algumas vantagens quando comparada ao chamado agulhamento seco (uso somente de agulhas), tais como: facilitar o trabalho do acupunturista, diminuir o tempo de aplicação, estimulação de várias agulhas ao mesmo tempo, tratamento igual em todas as agulhas, portanto, estimulação mais uniforme, estimulo mais intenso e seleção do método de tonificação ou sedação.
O efeito obtido pela eletroacupuntura depende da frequência empregada. A frequencia de um estímulo elétrico é o número de pulsos emitidos por segundo e é medida em Hertz (Hz).
Quando é aplicada corrente elétrica nas agulhas, são produzidos os seguintes efeitos: diminuição da irritabilidade, excitabilidade e condutividade dos nervos e músculos da região, vasodilatação, liberação de substâncias antiinflamatórias, tais como histamina e prostaglandinas.
Controle da dor
O segredo da analgesia terapêutica, como de qualquer tratamento por eletroacupuntura, é a frequência, que deve variar de acordo com os objetivos desejados. No caso da dor, o objetivo é a analgesia, então, deve-se pensar nos tipos de opioides centrais e seus receptores.
Quando se utiliza eletroacupuntura de alta freqüência (cerca de 100 Hz), ocorre liberação de opioides denominados dinorfinas A e B, que se ligam a receptores Kappa, encontrados preferencialmente na medula espinhal. Isto possibilita analgesia, principalmente a nível medular, que se caracteriza por ser intensa e desaparecer quando o estimulo elétrico é desligado.
O estímulo de baixa freqüência (cerca de 2 Hz) libera opioides dos tipos metioninas-encefalinas e leucinas-encefalinas, que se ligam aos receptores medulares e cerebrais do tipo Mu e Delta, o que acarreta analgesia que perdura por dias.
Em 1992, dois pesquisadores (Chen e Han) descobriram que o uso de frequências mistas, que alternam 2 e 15 Hz, produz a liberação de neurotransmissores que se ligam aos receptores Mu, Delta e Kappa, produzindo analgesia intensa e de longa duração.
A eletroacupuntura pode ser utilizada para o controle de qualquer tipo de dor. Deve-se, entretanto atentar para o fato de que o controle da dor não significa a cura da doença. Algumas doenças crônicas dolorosas, como artrose, doença do disco intervertebral e exostoses (bico de papagaio), pela medicina convencional, precisam ser tratadas de forma contínua com analgésicos e antiinflamatórios. Pela eletroacupuntura, tais condições também precisam de tratamentos frequentes para se obter a liberação dos analgésicos e antiinflamatórios endógenos. No entanto, a vantagem da acupuntura é que, pelo diagnóstico correto pela Medicina Veterinária Tradicional Chinesa, conforme o padrão da doença pode-se associar a analgesia produzida pela eletroacupuntura à inserção de agulhas secas para o tratamento do padrão da doença, o que levará a uma melhora clínica e, no decorrer do tempo, à cura da condição – fazendo-se, assim, a redução da frequência das sessões de eletroacupuntura.
A analgesia realizada com altas frequências por longo período de tempo leva a hipoalgesia (aumento do limiar da dor) e pode ser utilizada para procedimentos cirúrgicos em animais que não podem ser submetidos aos processos anestésicos. Neste caso, a eletroacupuntura com uso de aparelho é imprescindível, porque várias agulhas devem ser estimuladas simultaneamente, o estímulo é uniforme e o efeito pode ser ajustado de acordo com a necessidade. Estudo avaliando a eletroacupuntura como técnica analgésica em cesariana de cadelas concluiu que a depressão cardiorespiratória e neurológica foi maior nos filhotes das cadelas submetidas a anestesia inalatória do que a dos filhotes de cadelas submetidas a analgesia pela eletroacupuntura. Nesse trabalho, duas cadelas submetidas a analgesia por eletroacupuntura necessitaram de um complemento anestésico, o que mostra que a hipoalgesia obtida pela eletroacupuntura sofre variações individuais.
Vasodilatação
A utilização da eletroacupuntura como vasodilator é a segunda aplicação mais comum da técnica. Estudos feitos em 1989 mostraram que eletroacupuntura de alta ou baixa freqüência melhoraram a qualidade da cicatrização em retalhos cirúrgicos de áreas sem necrose. O tratamento consiste em aplicar corrente elétrica em agulhas inseridas na base da ferida cirúrgica em três sessões de uma hora cada após a cirurgia e duas sessões nos dois dias seguintes à intervenção. Nunca se deve utilizar esta técnica em tecidos infectados.
Indução de Trabalho de Parto
A indução do trabalho de parto pode ser feita pela eletroestimulação dos pontos IG4 e BP6 com frequência contínua de 15 Hz e intensidade alta (no limiar do limite da dor), que deve ser aumentada a cada 15 minutos. Trabalhos demonstraram que 75% dos casos de pacientes humanos de alto risco foram levados a franco trabalho de parto sem nenhum sofrimento fetal.
Motilidade gastrointestinal
Eletroacupuntura com frequência de 15 Hz aplicada nos pontos E36, IG4 e B25 aumenta a motilidade intestinal de cães.
Tratamento de Epilepsia
O tratamento da epilepsia é extremamente dependente da frequência utilizada. As leucinas-encefalinas facilitam o aparecimento das crises e aumentam a atividade do sistema nervoso central (SNC), mas as dinorfinas diminuem as crises epileptiformes e a atividade do SNC. Portanto, para o tratamento da epilepsia pela eletroacupuntura é imperativo o uso de frequências altas (100 Hz), pois, como já vimos, frequências altas liberam dinorfinas e frequencias baixas liberam leucinas-encefalinas.
A eletroacupuntura pode ser usada para o tratamento de várias patologias, em especial, para o controle da dor, e sua eficácia em cada doença depende da escolha da frequência que será utilizada.
As principais indicações da eletroacupuntura são doenças crônicas, principalmente condições dolorosas e nas paralisias.
As contra-indicações para o seu uso são: doenças cardíacas, febre, gestação (pode induzir o trabalho de parto), doenças agudas, traumas e epilepsia (se usar frequências baixas).
Suas principais vantagens são: economia de tempo, padronização do tratamento, estímulo uniforme, estimulo simultâneo em várias agulhas e ajuste da intensidade do estímulo.
Seus efeitos indesejáveis são: eletrólise, eletroforese, ionização tecidual, alterações do pH no local da aplicação e queimaduras.
A estimulação das agulhas pela corrente elétrica é feita por intermédio de um aparelho que gera pulsos, de forma que a frequência e intensidade da corrente podem ser controladas.
A eletroacupuntura é um excelente auxiliar nos tratamentos pela acupuntura, pois seus efeitos são bem conhecidos e a manipulação do aparelho gerador da corrente é bastante simples.
(*) Daionety Aparecida Pereira é médica veterinária, com especialização em homeopatia veterinária, mestre em Clínica Médica Veterinária, especializada em Acupuntura Veterinária e coordenadora do curso de especialização em acupuntura veterinária da Anclivepa-SP. |